O Guia da Lamentabilidade

Viajando diariamente pela Internet, estamos expostos ao mais insanos níveis de decadência e vergonha alheia que, de uma maneira ou outra, chegam até nós; seja por um compartilhamento no Facebook, um link em um blog que gostamos, um comentário no YouTube, diversas aberrações que habitam as profundezas na Internet chegam aos nossos olhos e nós ficamos que nem múmias na frente do computador, enquanto nosso cérebro escorre pelos ouvidos. Desse tipo de experiência uma palavra começou a ecoar em meus pensamentos: Lamentabilidade. Passei a usar o termo particularmente em meus pensamentos até que, um dia, meu amigo conspirador Diego “Center” Castillo utilizou o termo LAMENTABILIDADE (no caps lock mesmo) em um comentário na rede social. Foi quando eu percebi: a ciência da Lamentabilidade estava populando o Inconsciente Coletivo aos poucos. A partir deste fato, me animei pra usar o termo abertamente e passei a dedicar algumas horas diárias para sistematizar o estudo e o uso da Lamentabilidade como ferramenta divinatória (a arte de divinar consiste em obter informações inacessíveis por meios tradicionais), uma espécie de Tarot da vergonha alheia.

Tudo isso será explicado em detalhes a seguir, neste tratado que, esperamos, dê frutos a outros estudos e práticas, conduzindo a antiga arte da Lamentabilidade ao patamar que merece.

O que é Lamentabilidade

É a Arte e Ciência de calcular as chances de um evento apresentar desdobramentos lamentáveis para participantes e/ou observadores. (fonte: House of Lies)

A definição acadêmica não está muito boa ainda mas basicamente é um conjunto de reflexões, perguntas e ponderações, que visam unicamente prever de forma objetiva o risco de um evento ser ou dar em merda.

Ao contrário do que possa parecer, o cálculo da Lamentabilidade é uma arte antiga; os grandes representantes da arte de detectar ou até mesmo antecipar altos índices de Lamentabilidade foram pessoas como Sócrates (nem protestou ao tomar veneno, já que estava saturado da Lamentabilidade que o rodeava), Jesus Cristo (“perdõe-os Pai, eles não sabem o que fazem“) e Nietzsche (morreu considerado insano, porém o tempo não tardou a provar que este homem estava correto, podemos dizer que ele foi o cara do “eu avisei” sobre os horrores do nazismo). Nostradamus evidentemente fazia uso das artes divinatórias da Lamentabilidade em suas previsões do futuro.

O que essas pessoas não possuiam, em seu tempo, era a ferramenta de que hoje dispomos para calcular com precisão a Lamentabilidade de certos eventos: o Índice de Lamentabilidade (IdL). Antes da invenção deste poderoso algoritmo, o cálculo da Lamentabilidade era feito de forma intuitiva e era de cunho altamente introspectivo e particular; por isso foi comum atribuir o domínio deste conhecimento a personalidades notáveis da história, como os citados acima. PORÉM, hoje felizmente temos o cálculo de IdL, que democratizou o acesso da população a essa arte e ciência, cujos efeitos práticos podem ser comparados à invenção da imprensa e ao acesso do povo aos livros, outrora um tesouro de poucos.

Calculando o IdL

O IdL é um índice que vai de 0 (zero) a 1 (um). IdL zero significa: ótimos momentos, felicidade, desenvoltura e boas lembranças. IdL um significa: um dia para esquecer, na melhor das hipóteses. Para calcular o IdL e utilizá-lo como índice confiável de tomada de decisões, existe um procedimento simples. Como exemplo, vou utilizar um convite que eu recebi no ano passado: bora pro festival Mundo Imaginário, em São Thomé das Letras?!

Muito bem. Eu adoro São Thomé das Letras. Estive lá 6 vezes tanto com a cidade cheia, com a cidade vazia. Eu nunca participei (mentira, mas já faz tanto tempo) mas sei bem como funcionam esses festivais de música eletrônica no meio do mato. Então neste caso eu possuía um conhecimento razoável acerca do lugar. Quando você ignora completamente o seu destino, o cálculo do IdL adquire dimensões de improbabilidade maiores, mas que mesmo assim podem ser contornados por um hábil cientista das decisões cotidianas (o que talvez você ainda não seja). Vamos então para a primeira atividade do cálculo do IdL:

1. Elencando as condições do ambiente

Começamos com os possíveis aspectos negativos, já que se trata, acima de tudo, de calcular a LAMENTABILIDADE. Vamos dividi-los em tenso (peso 1), muito tenso (peso 2)ignorável (peso 0). Vale lembrar que são valores altamente pessoais e não-universais. O cálculo do IdL é uma das ciências da intimidade.

  • festival de música estilo rave non-stop: tenso
  • jovens de classe média-alta reunidos em grande quantidade (multidão muito doida): tenso
  • estilo neo-hippie-usuário-de-cocaína-e-ecstasy predominante no ambiente: muito tenso
  • previsão de tempo chuvoso para a data do evento: tenso (como poderemos ver adiante, subestimei esse fator quando fiz o cálculo há um ano atrás)

Em seguida, passamos a elencar os atenuantes, dividindo os itens em impossível (peso 0), provável (peso 1), improvável (peso 0,5):

  • conhecer alguém interessante, com possíveis intercursos afetivos: improvável
  • conhecer uma pessoa alucinada, com possíveis interações de cunho sexual sem compromissos: provável
  • possibilidade de fugir da festa e curtir a natureza sem ser incomodado: provável
  • descobrir que gosto de festas rave e encher o rabo de  ecstasy: impossível

2. Relacionando os valores obtidos

Temos então quatro itens negativos e quatro atenuantes, mas essa paridade não é obrigatória para o cálculo. A soma dos pesos negativos deu 5, enquanto a dos atenuantes deu 2,5. A soma dá 7,5.

Agora vamos dividir o índice máximo de IdL (1) pela soma dos pesos (7,5). O resultado aproximado é 0,13, o que chamaremos de unidade básica de Lamentabilidade (UBL).

Multiplicamos o UBL pelo peso negativo (5) para chegar ao Índice de Lamentabilidade aproximado: 0,66. Portanto, a chance da minha participação no evento Mundo Imaginário ser lamentável é de aproximadamente 66%.

3. Tomando decisões e encarando os fatos

Baseado nos índices extremamente confiáveis deste cálculo, eu resolvi me abster de participar do evento. “Nossa, você é um chato, pessimista”, uns poderiam dizer. Mas o fato é que, do jeito que as coisas aconteceram no referido evento, na verdade eu estava sendo extremamente otimista…

Na verdade eu descobri que estava sendo preconceituoso quando levantei os itens negativos da minha análise de Lamentabilidade. Se você visitar um website que estava anunciando o festival, vai ver que é um show de diversidade, ecletismo musical e pensamentos positivos! Um mundo maravilhoso!

Mas, se você ler o relato de uma das participantes do evento, vai ver que eu estava completamente enganado. Foi muito, mas muito pior do que poderia se supor. Desorganização, abandono do público, falta de estrutura, uma tempestade calamitosa (um raio matou um homem) foram ingredientes trágicos do evento, disparando o IdL ao nível máximo. Apesar de ser trágico, não há nada de absurdo em raios caindo em pessoas – é a natureza. Porém…

4. Quando o IdL supera seus próprios limites

O absurdo de uma situação decorrente de ação humana, de acordo com alguns estudiosos, pode fazer com que o IdL ultrapasse seu nível máximo. Nesses casos, há consequências graves para a integridade dos envolvidos. Sintomas envolvem: vergonha de pertencer à raça humana, desânimo profundo, confusão dos sentidos, andar em círculos repetindo “porque” e outros sintomas bizarros.

Pois bem, você está no festival Mundo Imaginário, uma tempestade arrasou tudo, não há comida, não há som, não há nada de bom para se fazer ali… Mas você resolve se juntar à multidão enfurecida e saquear um caminhão de cerveja, já que a lógica parece ser que um erro justifica outro erro e assim em diante. A Lamentabilidade já está próxima de seu valor máximo, talvez já até tenha o alcançado. Você acha que não dá pra piorar, e pelo menos vai beber uma cerveja quente decorrente do seu saque ao caminhão. No entanto, você não contava com…

O maluco da moto-serra manooo!!!

turbofacepalm

Um elemento bizarro e imprevisível como este fez o IdL chegar a inacreditáveis 1,87, de acordo com estudos publicados por cientistas de um importante laboratório fictício. O drástico aumento de nível teve início quando a rapaziada muito louca resolveu detonar o caminhão de cerveja, atingindo seu ápice com o surgimento de nosso Jason de Minas Gerais.

Eu nunca agradeci tanto na minha vida por ter feito um estudo prévio de Lamentabilidade. Isso prova a extrema utilidade e eficácia de nosso método, desenvolvido meticulosamente durante meses de consumo de substâncias suspeitas estudos e pesquisas de campo.

5. Abrindo exceções

Quantas vezes já estivemos diante de situações com IdL alto e nos arriscamos mesmo assim? As vezes, um atenuante ou ponto positivo podem ser suficientes para que, mesmo com a Lamentabilidade saltando aos olhos, a empreitada em questão seja feita. Por exemplo: te chamam para ir naquele local terrível com música péssima, mas uma pessoa em que você está “de olho” estará presente. Você deve então tornar-se um bastião do foco e do otimismo e seguir adiante, porque nem só de cálculos e probabilidades são feitas as coisas boas da vida.

Resumindo

O cálculo da Lamentabilidade não deve ser feito a esmo, sob o risco de tornar sua vida pouco prática e te tornar uma pessoa pessimista e exageradamente cautelosa. Pessoalmente, uso apenas quando me fazem convites suspeitos ou decido sair a noite em São José dos Campos, iniciativa que por si só já começa com um IdL de 0,5, em média.

Utilize com moderação este poderoso conhecimento que, se aplicado com sabedoria, irá lhe poupar de momentos lamentáveis e situações embaraçosas.

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Texto escrito por Rafael (dedos), Artista Visual (e cientista do inútil) – http://dedos.info

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Diga não à mentalidade de soja

Eu sempre torci o nariz pra esse barato de “carne de soja” e produtos similares. Nem quando eu era vegetariano eu comia essa famigerada receita, que na verdade leva comercialmente a alcunha de PTS (Proteína Texturizada de Soja) e pode ser encontrada em qualquer restaurante vegetariano (qualquer um que não inclua este ingrediente em suas receitas merece elogios públicos e um fluxo ininterrupto de clientes).

Vamos todos parar para refletir por uns instantes… O que é a soja? É o grão abaixo, e até onde eu entendi, é da mesma família dos feijões em geral:

grãos de soja que lindo

grãos de soja que lindo

E agora vamos observar o produto carne de soja (strogonoff mode), que tem origem no grão acima:

hmmm

hmmm

E agora, finalmente, vamos observar o este desenho de minha autoria, que meu pai comprou de mim provavelmente com pena dos desdobramentos lamentáveis da minha carreira artística até aquele momento:

Leite de Frango

era pra ser tipo uma propaganda, os meninos felizes atrás

O que o desenho que eu fiz tem a ver com a soja e os produtos de soja? Tudo. No plano das idéias, carne de sojaleite de frango compartilham o mesmo quarto, dividem a mesma cama e convivem harmoniosamente uma com o outro. Quando falamos em carne de soja, estamos falando na verdade de um produto industrial projetado para provocar estímulos similares aos da carne nos seres humanos (fonte: The House of Lies), incluindo aí a aparência, a textura e a consistência, por exemplo.

Portanto eu poderia sim criar um produto chamado leite de frango, que não necessariamente precisaria ser leite, nem ser de frango, sendo o bastante possuir um aspecto leitoso e cromático aceitável o suficiente para despertar o desejo em algum ser humano de beber aquele produto. A margarina é um excelente exemplo desse feito, um creme colorido que conseguimos engolir…

O perigo real deste tipo de produto/ideia é que, lentamente, está se inculcando no Inconsciente Coletivo a mentalidade de soja. Coisas que, ao mesmo tempo, não são aquilo que são, mas imitam o que deveriam ser. Alguma coisa ganha o adjetivo de soja quando passa pelo seguinte processo:

  1. Descaracterização. Quando algo, por motivos inerentes a si ou forças externas, perde gradualmente ou inteiramente as suas características e propósitos originais de sua existência. (A soja é triturada, espremida, moída ou sei lá o que;)
  2. Reconfiguração. A matéria disforme adquire um novo formato, passando a apresentar novas características (A gosma de soja é transformada pelo milagre da indústria em carne de soja);
  3. Reapresentação. A matéria antes desconfigurada e retrabalhada agora é oficialmente apresentada com sua nova identidade, e seu passado é enviado para os confins da irrelevância. (A carne de soja é vendida em mercados e servida em restaurantes).

Este processo vale não apenas para produtos, mas para pessoas, ações, relacionamentos… Vamos ver alguns exemplos onde a mentalidade de soja já vem há tempos disseminando ardilosamente seu estilo de vida insosso e prático.

Amizade de sojaEnquanto está tudo legal, ou conveniente, é uma delícia. Mas perde rapidamente o sabor quando vêm as adversidades ou necessidades de engajamento um pouco mais sério. Bom de ostentar, difícil de viver. Estima-se que mais de 90% das amizades de Facebook sejam sabor soja.

Música de soja: Ocupa algum espaço nos ouvidos, mas não os preenche. Todas tem o gosto muito parecido. Gosto residual enjoativo. A exposição contínua leva à cacofonia, repetição vaga de sílabas desconexas e a sensação de ter feito algo muito errado. Cientistas apontam que, erroneamente, o termo “universitário” vem sendo utilizado como substituto a essa modalidade.

Relacionamentos sérios de soja: Aquele ser humano que, um dia, você olhou apaixonada e amorosamente, contemplando lentamente suas feições e tendo a certeza de ser sua faceta espiritual gêmea, hoje se tornou seu inimigo. Hoje, esse ser humano controla suas ações, te pergunta sobre tudo o que você fez, investiga seus amigos no Facebook, fica irritado se você não responde as suas mensagens no celular e por aí vai. Mas, para todos os efeitos, vocês se portam dignamente na rua, colocam fotos sorridentes nas redes sociais, ostentam o título virtual de Estou num relacionamento sérioA infelicidade de seu relacionamento, associada ao marketing positivo do mesmo, fazem dele um relacionamento sério de soja.

Sexo de soja: É o sexo que você não quer fazer, mas vai fazer porque você acha que deveria fazer. Seja para falar pra seus amigos que trepou, para se auto-afirmar, seja para satisfazer os desejos ansiosos do seu parceiro que não para de te encher o saco, o sexo de soja é pastoso, inconsistente, sem maiores temperos e muitas vezes requer bebidas para “descer” . O sexo de soja costuma vir embutido nos relacionamentos sérios de soja mas pode ser encontrado em diversas embalagens.

Vida noturna de soja: A noite vai ser uma merda. Os lugares abertos são todos caros, não tem lugar pra sentar, as filas enormes, pessoas chatas, música mais ainda. Aquela noite para ficar em casa. Mas você vai sair, porque você sente que tem que sair no fim de semana. E provavelmente vai registrar e compartilhar seus momentos tediosos, fazendo com que pareçam emocionantes. Essa é sua vida noturna de soja. E minha homenagem particular à vida noturna de São José dos Campos-SP.

Sentimentos de soja: Há uma tendência contemporânea fortíssima ao humor irônico, exacerbando o costume milenar humano de rir da própria desgraça, talvez pela nossa desgraça estar, mais do que nunca, escancarado na mídia e afins. No entanto, há sempre os que levam certas coisas a um extremo, transformando um recurso em um estilo de vida. Todos conhecemos aquela pessoa incapaz de aceitar elogios ou críticas, falar de sentimentos, expressar simpatia sincera por alguém. Sempre desviando o foco com comentários engraçadinhos, tiradas e observações sarcásticas, os sentimentos de soja ficam na prateleira à disposição das conversas fúteis e observações rotineiras do cotidiano sojístico.

Conclusão nada conclusiva:

Obviamente, não foi o consumo de soja que deu origem a essa mentalidade, sendo mais um reflexo dela. Dada a posição de destaque na nossa cultura alimentar contemporânea, optamos por utilizá-la metaforicamente. Escapar integralmente do estilo de vida de soja é uma missão dificílima – mesmo que não assumamos um comportamento de soja, fatalmente nos encontraremos em algum momento de soja onde o comportamento de soja será necessário para sairmos desse momento com desenvoltura. Contudo, a constante observância das oportunidades de morder a verdadeira substância vital do cotidiano – que não tem sabor de soja – pode ser alcançada, mitigando assim os efeitos deletérios sobre o Espírito que são próprios da mentalidade de soja.

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Texto escrito por Rafael (dedos), Artista Visual (e opositor da soja) – http://dedos.info

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O homem respeitável da TV

Este final de semana eu cometi um erro. Assisti alguns minutos de televisão na casa de um amigo. Consegui me recuperar da hemorragia nos meus globos oculares a tempo de escrever o que vi – na verdade, um comercial de automóvel me ficou na memória pelo altíssimo IdL (Índice de Lamentabilidade – um dia falaremos mais a respeito), tanto que eu, uma abjeção em guardar coisas como essa na memória, me lembrei até do nome do carro. (Não sei nada a respeito da integridade das minhas sinapses ainda.)

O comercial do Fiat Linea 2012 elenca, em apenas 30 segundos, 28 qualidades que, alegadamente, deixam um homem mais “respeitável”. Se tiverem paciência vamos comigo dar uma analisada minuciosa nos elementos de respeitabilidade de um ser humano do sexo masculino da idade adulta em vida social, a começar pelo comercial em questão:

A lista de requisitos do homem respeitável

Terno e gravata.Essa é clássica, esperada no repertório, mesmo no nosso país onde faz um calor absurdo. A esse respeito sou categórico: prefiro muito mais o “novo traje do homem dos trópicos”, de Flávio de Carvalho, ESSE SIM um homem respeitável, que na década de 50 saiu andando por São Paulo com o que entendia ser o traje ideal para nossas terras.

Image

Se isso não é respeitável eu não sei o que é. E além de tudo é elegante, não fica aquela coisa meio tia velha do Laerte

Barba feita, óculos… Aqui estamos vendo a construção sutil do esterótipo: homem de bem. Não do homem underground de bem, tão esculhambado por nós desse conluio – o homem de bem tradicional, aquele cara engomadinho de óculos e sorriso falseta.

Sentar na cabeceira. Começa aqui o festival de tolices sem sentido surgidas na mente de um jovem e confuso publicitário? Ah já tinha começado, é que essa meio que deu um RESTART no bom senso ou talvez eu esteja me expondo demais a tudo isso. Mal começamos…

Viajar, falar outra língua. De ladrão viajado e poliglota o mundo está cheio, como bem sabemos. Ademais, mais um aspecto de mais uma farsa, a de que a tal respeitabilidade não pode existir num homem simples.

Estar em forma. A ditadura dos corpos é mais um elemento do repertório do homem de bem, mais especificamente do homem coxa de bem, o jovem grisalho que assiste Luciano Huck e usa sapatênis – repare no calçado do homem pulando corda. Eu não confio num homem que opta por usar sapatênis. Aliás tem um texto intrigante sobre sapatênis e Coldplay em algum lugar… aqui, achei.

Ser pontual, caneta, anel. Sem comentários.

Gola engomada. Aqui estamos começando a galgar os cumes da lamentabilidade. Vai no mesmo pacote do terno e gravata, a vestimenta do homem de bem, descrita em seus mínimos detalhes.

Um gesto, perfume, hobby. O “gesto” é ilustrado por puxar a cadeira para alguém. A referência clara é o nauseante cavalheirismo do século passado onde era norma tratar uma mulher como uma verdadeira retardada. O hobby? Golfe, esporte elitista e chato por excelência, onde você pode praticar bem arrumado pra se mostrar pra sua consorte entediada em meio a outros senhores respeitáveis e bem vestidos.

Voz grave. Não que ter uma voz de pato seja algo fascinante – mas quando algo desse tipo passa na TV para milhões de espectadores, muitos dos quais não tem voz baixa, estamos construindo aos poucos, juntamente com outros comerciais do gênero, uma legião de insatisfeitos que não tem voz grave e nenhum dos atributos e pertences acima e abaixo. A velha tática propagandista é de colocar o público em posição de desvantagem ou desconforto, aqui não é diferente.

Abotoadura, cinto, cabelo branco, um toque, lenço, cartão de visita, rubrica.. Sem comentários.

Cultura. Eu gostaria de comentar sobre a imagem que aparece nesse trecho. O homem respeitável está olhando para um quadro. Cultura. É evidente que não poderíamos esperar outra coisa desse comercial e que a cultura, naturalmente, seria representada pelo modelo europeu de arte. Olhar para quadros é atividade tão surrealmente distante do cotidiano do brasileiro que alguém poderia ficar pensando que, realmente, trata-se de um hábito elevado e digno de respeito. Engano. Artistas, trabalhadores da cultura e afins tem tido um salvo conduto secular para serem boçais e superficiais sob uma atmosfera de bajulação, e este comercial está sendo consistente em sua proposta ao escolher tal imagem para representar esse monstro que é a palavra Cultura.

Prato francês. Prato francês. Prato francês. Prato francês. Prato francês. Prato francês…

Sapato. Habilmente colocado no fim da propaganda como fechamento do traje do homem de bem.

Linea na garagem. TCHARAAAAAN. É claro que depois de se engomar e fazer bico no espelho igual um filho da puta você tinha que concluir o rolê respeitável de uma maneira digna e motorizada. Uma maneira Fiat. Fiat Linea. (Repare que o homem sai dirigindo com a barba por fazer. E a tal da barba feita?)

Não há o que fazer com tudo isso

Eu realmente não sei se existe alguém que assista a essa propaganda e pense “Puxa, de fato, eu seria mais respeitável se conseguisse cumprir com cada um dos requisitos desse comercial. Empenharei minhas finanças e minhas energias nesse sentido e coroarei minha trajetória com a aquisição deste belo automóvel.

Mas eu sei que existiram pelo menos duas pessoas – uma, a que teve a ideia desse vídeo. E outra, que achou genial, e concedeu o dinheiro e tudo que foi necessário para a sua realização. Eu fico me perguntando que tipo de vida essas pessoas levam, se o cara que editou o vídeo é um cara com a barba por fazer, de bermuda, andando de bicicleta, sem gola engomada e caneta metálica no bolso, sem abotoadura, que nunca tenha comida um prato francês e não tenha uma porra de um Linea na garagem… e nem por isso indigno de respeito ou simpatia dos outros.

Imagino que haja outras propagandas até piores circulando nesse momento. O conjunto da obra deve ser terrível. Eu felizmente não sou bombardeado por isso diariamente, como já relatei – mas imagino que o poder de muitas propagandas colocando patamares elevados de vida para as pessoas tenham um resultado terrível no inconsciente coletivo, na auto-estima das pessoas. Propagandas superficiais e ridículas como essa, afunilando milhares de estilos de vida possíveis numa massa mole machista de terno chamada homem de bem, sutilmente moldando o ideal de homem a ser seguido, o homem descolado, elegante, da “cultura” e do sapatênis, que assiste Luciano Huck e lê blogs de conselhos para homens, escritos por outros homens respeitáveis.

Você pode alegar que é “uma simples propaganda” – mas uma coisa dessas não vai ao ar à toa. Vai ao ar porque funciona. Milhares de homens respeitáveis estão germinando silenciosamente enquanto desenvolvemos nossas panças frente à TV, colaborando para o próspero e próximo reinado da estupidez e do ódio. A imagem que ilustra perfeitamente essa sociedade, para mim, é o casal homem do nariz grande e apresentadora loura de nome angelical, tido como modelo de felicidade e matrimônio, que destila naftalina e tédio nos finais de semana televisivos.

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Texto escrito por Rafael (dedos), Artista Visual (e homem não-respeitável) – http://dedos.info

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A farsa do vegetarianismo como discurso político

Ou: sobre animais, plantas e mendigos.

É necessário que se esclareçam dois pontos antes de comungarmos deste indigesto Cafezinho Bomba. É sabido que este blog é uma espécie de confraria de malfeitores, profetas do apocalipse e inimigos públicos, portanto se você veio buscar palavras de alento face à sua escolha alimentar vegetariana, ou ainda um discurso ponderado, embasado em fatos comprovados, eu sinto muito. Vamos aos pontos:

  1. Eu sou vegetariano há muitos anos; sinto empatia enorme pelos animais e prezo todos os benefícios de uma alimentação que não inclua carne de espécie alguma. EDIT: voltei a comer carne em janeiro/2013.
  2. Eu odeio a democracia. A democracia tem muito em comum com a comunicação de massa: é necessário nivelar as ideias e os atos por baixo, para que todos, incluindo os estúpidos, possam de certa forma entender e usufruir de seus teóricos benefícios. Na prática, porém, isto não funciona. O exemplo brasileiro é ótimo – supostamente vivemos num estado laico com direitos iguais a todos. Entretanto, vivemos em um estado cristão, niilista, histérico e cheio de ódio, onde claramente não há igualdade de direitos. E por dar voz e poder a tantos cristãos niilistas e outros tipos de odiadores, ficamos emperrados em assuntos sérios e reais – como o aborto, a legalização de algumas drogas, a eutanásia, células tronco etc. Sempre serei pelo anarquismo, pois este não me obriga a necessariamente aceitar a estupidez alheia. Tudo isso será levado em conta na moderação dos comentários.

Estes pontos sendo esclarecidos, podemos prosseguir com o nosso singelo artigo. Outro dia mesmo publicamos um texto de relativo sucesso, o Polêmico manual do ciclista do inferno urbano (mas que porra de título), onde apontávamos o cicloativismo como uma das facetas do Homem Underground de Bem, o jovem grisalho que termina todas suas frases com “mas nem tanto”. Este é mais um libelo contra um dos artifícios lançados pelo H.U.B. em seus confortável protesto contra o stablishment: o vegetarianismo. Gostaria de elencar algumas características da Farsa do Vegetarianismo como Discurso Político.

vegetarianismo

Substitua “animais” por “casamento” ou “seres humanos”, dá certo

1. Uma escolha elitista

Você já frequentou um restaurante vegetariano em uma cidade como São Paulo, ou ainda, nossa querida São José dos Campos? Eu os frequento constantemente. Sabe que tipo de pessoas estou acostumado a ver? Pessoas bem vestidas, de olhar altivo e sereno, vestindo roupas de teores neo-hippies com alguma chumbreguice oriental. O preço da comida costuma ser bastante elevado. Ah, mas você não come em restaurantes, e sempre é possível comprar uma boa comida por preços razoáveis e comer em casa, certo? Claro que sim, mas se você não quiser ficar rapidamente desnutrido comendo arroz branco e alface como sempre, vai ter que ir atrás de alimentos integrais e outras coisas saudáveis. E aí você vai se deparar com um estranho fato: é muito mais barato se alimentar das porcarias embutidas e sintéticas do que de alimentos ditos orgânicos e integrais. Existe todo um mercado de produtos voltados para vegetarianos e pessoas com hábitos alimentares nobres e elevados e adivinhe só, todos esses produtos custam caro (já escrevi sobre isso em outro texto – O Advento da Salsicha). Aliás o tal do alimento orgânico – que é muito mais caro do que aquela cenoura mutante com a qual você poderia matar alguém na paulada – nada mais é do que o que nossos avós plantavam no quintal de suas casas. Novos nomes e rótulos vão sendo gerados, prefixos bonitos como acti, nutri, bio vão sendo acrescentados. A inversão foi feita genialmente. Se não tiver dinheiro, você vai comer o pior que a indústria de alimentos pode oferecer. As descobertas sobre os alimentos que vem sendo usados em nossos alimentos industriais, por sinal, não são nada animadoras. Outro tópico que pega um gancho neste é o seguinte:

2. Um discurso restrito

Faça uma viagem a alguma cidade encravada no interior de nosso país e seja recebido por uma família do lugar. Na hora em que servirem o almoço, diga que você não come carne e contemple a expressão de seus anfitriões. Aquilo lhes parecerá simplesmente alienígena. Se você quiser piorar muito as coisas, comece a explicar seus motivos ideológicos a eles – o sistema industrial de matança, os prejuízos à agricultura, a tortura aos animais… Porque isso acontece? Porque o vegetarianismo enquanto discurso político não tem muito alcance, por estar restrito aos lugares onde há dinheiro e homens (e mulheres, ok?) underground de bem. Para muitas famílias soará até ofensivo que se retire a já escassa carne de suas dietas. Existe algum problema com essas pessoas? Elas caminham sozinhas nas sombras da ignorância? É necessário um messias vegetariano para espalhar a boa nova nessa terra arrasada…? Não creio em nenhuma dessas respostas. Pelo contrário. O vegetarianismo é só uma escolha como qualquer outra – é estúpido pensar que é uma escolha adequada para todas as pessoas ou mais correta e nobre. Porém, muitas vezes, é pra isso mesmo que se presta esse discurso:

3. Um jeito de canalizar seu ódio

Existe uma legião de pessoas assim: enquanto, em seu interior, nutrem um desprezo e um ódio rançoso pela humanidade, abraçam causas como a proteção dos animais e o vegetarianismo para destilar sua pretensa superioridade sobre seus pares. Essas pessoas cuspiriam num mendigo pedindo comida na rua, e na sequência abrigariam um cão abandonado em seus lares, publicando fotos dele no Facebook e procurando pessoas para adotar enquanto recebem cumprimentos de outros amigos politicamente corretos. Entre alguns vegetarianos há um comportamento similar: há pessoas que vão agarrar a primeira oportunidade para despejar sobre os outros o seu discurso politicamente correto e cheio de ódio sobre como o ser humano é um câncer para o planeta, e de como estamos escravizando os animais em nosso benefício em uma indústria mortífera e lucrativa. Evidente que em algum ponto esse discurso realmente toca os fatos – mas não é disso que se trata o discurso do vegetariano raivoso. Trata-se apenas de se afirmar sobre os outros fazendo uso de sua opção alimentar – o que, francamente, é fácil de mudar se houver o real desejo – para destilar seu ódio de si mesmo e dos outros. Esse discurso trata o ser humano como um alienígena que, em algum ponto da história do planeta, se impôs sobre as outras espécies num plano maldoso de dominação do planeta. Se esquecem de que nós, macaquinhos humanos, também somos frutos da seleção natural e que nosso cérebro foi fundamental para nossa sobrevivência. É fato que encontramos meios bem cruéis de garantir isso, porém bondade e maldade são conceitos humanos – respeitar a natureza não é nenhuma garantia de ser “respeitado” por ela.  É aí onde entram suas opções. Mas ser vegetariano não necessariamente é uma “boa” opção…

4. Novas comidas, velhos hábitos

Ser vegetariano não é nenhum salvo-conduto de pureza pessoal – até que se prove o contrário a única diferença de você para os outros é que você não come carne. Aliás, as vezes você nem deixa de ter essa vontade – razão pelo sucesso de produtos como carne de soja, hamburguer de soja, presunto de soja, leite de soja… A soja é um ótimo exemplo de como a farsa vegetariana opera, em vários níveis, e não tem a pretensa nobreza que se quer transmitir:

  1. você ainda quer algo que se pareça carne, que tenha os mesmos supostos benefícios da carne (o desespero pelas proteínas tão facilmente alcançada de outros meios);
  2. você ainda está disposto a comer produtos transgênicos, processados industrialmente, desfigurados e moldados de maneira a assumirem diversas formas;
  3. você ainda está contribuindo para um sistema agroindustrial escroto, o esquemão da soja.

Outra coisa. Doces, bebidas alcoólicas e todo tipo de traquitanas alimentares podem continuar sendo consumidos sem culpa nenhuma. Eu acho muito engraçado – existe o caso mais específico ainda dos veganos. Conheço gente que não come nada de origem animal mas comemora quando descobre um salgadinho ou guloseima que não tenha traços animais. Consumir leite ou carne é terrível, mas glutamato de sódio e outras substâncias com nomes terríveis estão ideologicamente livres para serem absorvidos.

5. Você não está salvando o mundo

Sinto lhe informar, pessoa de bem, que você apenas escolheu outra indústria pra servir – no máximo deixou de alimentar uma. Você está, possivelmente, fazendo um bem enorme a si mesmo – qualquer vegetariano de médio-longo prazo sabe de todos os benefícios e do bem estar que acomete o organismo. Mas as coisas param por aí. Talvez, na minha opinião provavelmente, a relação entre vegetarianos/onívoros continuará estável com o passar dos anos. Se esse assunto está em voga hoje é meramente porque estão sendo criados mercados em torno disso e a fase ainda é boa para inovar. Existe também o momento de inserção de diversos elementos de culturas orientais na nossa sociedade ocidental. Práticas e filosofias como o Budismo, Yoga e Meditação tem encontrado muito mais espaço em nosso meio. E é claro que a mensagem oriental de auto-aceitação e auto-realização foi distorcida a nosso bel prazer, permitindo todo o tipo de comportamentos indolentes e preguiçosos – o que gera essa bizarrice enfadonha que são as pessoas extremamente chatas, recalcadas e mal-humoradas usando roupas indianas e frequentando cursos, aulas de meditação e SPAs de autoconhecimento.

Concluindo

Eu entendo perfeitamente as pessoas que escarnecem dos vegetarianos e afins, tirando sarro de seus hábitos, perguntando se vão comer alface no jantar. Eu até me junto a eles em alguns momentos. Em minha humilde concepção do mundo, nós humanos também somos animais e merecemos tanto amor e cuidado quanto os gatinhos e cãezinhos abandonados que infestam o Facebook. A farsa do vegetarianismo como discurso político é uma postura confortável para expressar um suposto descontentamento com os fatos e mascarar o desprezo de muitos pelos seres humanos – uma forma de manifestar exteriormente a falta de intimidade consigo mesmo, o que gera falta de empatia e sensibilidade para com o outro.  No fim das contas, sob a frieza dos fatos, você está esperneando enquanto enche a pança, um privilégio para muito poucos. Parabéns.


Texto escrito por Rafael (dedos), Artista Visual (e ex-vegetariano) – http://dedos.info

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O enfático guia de sobrevivência emocional na Internet

Lembro de uma cena emblemática de minha juventude nos anos 10 do século XXI. Havia combinado um rolê de bike com um amigo. Quando cheguei à sua casa, ele já me esperava lá na frente, mas em seu rosto havia um semblante de pesar, preocupação. Perguntei a ele o que se passava e ele disse “não é nada, vamos embora”. Mas depois de alguns minutos pedalando ele me confidenciou: havia atualizado seu status no Facebook e estava arrependido do que havia escrito, preocupado com o que algumas pessoas pensariam do que escreveu. Tanto que ele me pediu pra voltarmos rapidinho pra casa dele pra que ele pudesse apagar o que havia escrito.

O que aconteceu? Culpa, remorso? Excesso de auto-consciência? Ahhh meu amigo, o que aconteceu foi o seguinte: você, atrás de seu computador, estava todo valente, confiante em sua mensagem que, obviamente, a maioria de seus amigos iria curtir. Você postou a mensagem. Os minutos se passaram. Nenhum like. Nenhum comentário. Talvez um curtir solitário após meia hora. Ou pior, um comentário negativo de alguém. Você começa a se desesperar, pois após o tempo viu que sua mensagem não era lá essas coisas…

escultura

“Só 3 likes em 24 horas, eu vou me matar”

Porque uma situação como essa gerou um transtorno tão grande em meu amigo? A ponto de ele nos fazer voltar pra casa pra apagar o seus status? Vamos examinar por partes. Mas inicialmente, quem sou eu pra falar sobre isso? Pois bem, eu adoro a Internet, e não tenho vergonha nenhuma de assumir que adoro redes sociais, em especial o Facebook, que uso sistematicamente para promover meus trabalhos artísticos, textos e também o meu inflamado ego. Tenho um website ridículo (pode clicar, vai abrir uma nova aba e não tem pornografia – pelo menos na página inicial). Constantemente estou expondo meus pensamentos ao público. As vezes escrevo mensagens que eu sei que vão desagradar. E não fico me roendo sozinho em posição fetal em casa após postar minhas mensagens. Porque pra mim, está bem claro que…

1. As pessoas só querem saber de si mesmas

Essa é pra você que postou um comentário no Facebook e está amargamente arrependido. Eu tenho uma ótima novidade pra você. Ninguém esta nem aí pro que você escreveu – a não ser que esse texto ou comentário possa gerar algum tipo de empatia na pessoa, ou seja, que seus leitores identifiquem em suas palavras alguma coisa que as lembre de suas próprias vidas. Se for um texto diretamente sobre elas, melhor ainda. Mas caso seja alguma coisa do tipo “fui num lugar incrível ontem” ou ainda “não gosto do modo como tratam as pessoas nos correios”, prepare-se para o mais profundo vácuo internético. Portanto contente-se, ao menos uma vez na vida, em não ser o queridinho das pessoas, porque elas não estão na sua frente e não precisam demonstrar nenhum tipo de cordialidade. O que, aliás, me lembrou do seguinte:

2. As pessoas no Facebook não são elas mesmas

Quando eu estou na sua frente, em carne e osso, você não tem muito tempo de reação às minhas palavras e ações. Agora quando estamos dialogando pelo Facebook, o que acontece? Existem pelo menos dois computadores entre eu e você (sem considerar toda a trama da Internet é claro). O que te dá tempo pra pensar, refletir, escolher as palavras, cada vírgula, duas ou três exclamações… Ficamos corajosos de repente, viramos filósofos, digitamos coisas que jamais falamos. É cada dia mais comum vivermos interfaceados. Se você entrar no meu Facebook, por exemplo, verá diversas fotos cuidadosamente escolhidas onde eu apareço sem camisa, fazendo coisas legais como pinturas e Slacklining, por exemplo. A partir delas você pode julgar que minha vida é constantemente preenchida com aventuras desse tipo, mas eu estou escrevendo esse texto de dentro de um escritório com ar condicionado com a maior cara de bunda possível. Portanto acho válido levar em conta a seguinte observação:

3. Nada substitui a “vida real”, offline

Quando sou publicamente criticado na Internet ou minhas publicações não alcançam o sucesso esperado, você acha que passo horas triste, calculando como vou melhorar da próxima vez? Não. Eu encerro minhas atividades online e vou atrás do que me interessa na vida: amigos, bicicletas, meninas, Yoga, Slacklines, desenhos, viagens etc. Eu não tenho um smartphone nem Internet no celular por opção, justamente por causa disso – manter a minha vida carnal saudavelmente distante da minha vida virtual. O que me lembrou do seguinte:

4. Ninguém fica pensando nas coisas que você publica, só você

Essa vai pro meu amigo da bicicleta que ficou todo arrependido do que escreveu. Você fica pensando, pelo restante do dia, em cada atualização de status que lê na sua timeline? Você considera as pessoas imediatamente idiotas ou burras a cada atualização de status pouco inteligente ou pouco inspirada que elas fazem? Bom, eu não. E tenho a forte intuição de que as outras pessoas também não. Não se leve tão a sério – todos nós estamos no mesmo jogo de aparências. Silenciosamente somos cúmplices um do outro nisso tudo. A Internet e as redes sociais podem ser usadas a seu favor – ampliando contatos, expandindo suas opiniões e seu gosto, promovendo seu trabalho etc. Mas é claro que você sempre pode cagar tudo e causar o exatamente o efeito inverso… Os tópicos seguintes descrevem como aumentar o seu I.L. (Índice de Lamentabilidade) nas redes sociais:

5. Usando o Facebook pra reclamar à toa, brigar em público, etc

Pessoas reclamonas e brigonas são especialistas em ferrar com a energia dos ambientes por onde passam. Se você faz isso na vida real, eu não te conheço, porque a vida parece não permitir que esse tipo de gente se aproxime de mim, fato pelo qual sou muito grato à Existência. Mas pode ser que você tenha passado pelo meu Facebook – só que eu já bloqueei suas publicações. Essa é a grande diferença da vida real da virtual – eu posso me relacionar contigo virtualmente e filtrar o que não gosto em você. O seu destino virtual é ambíguo: uma espécie de ostracismo, pois poucos gostarão de acompanhar suas histórias, mas na verdade MUITOS estarão assistindo silenciosamente a sua patética saga virtual de lamentações. Como eu disse lá em cima, talvez seja melhor você não ligar pra isso e tocar sua vida. Ou talvez seja melhor você não ter nenhum tipo de vida virtual, sério. Porque lembrei do seguinte:

6. A Internet e o uso da linguagem

Desconheço o seu passado. Mas pode ser que você não saiba fazer um uso minimamente coerente da língua portuguesa. Acontece. Há quem diga que a linguagem escrita deve ser suprimida em prol das expressões orais. Há quem diga. Porém, saiba do seguinte: você está sendo diariamente auscultado por centenas, milhares de pessoas, e algumas dessas pessoas poderiam lhe indicar o caminho para seu próximo emprego, viagem, um novo amor… Poderiam. Mas não vão. Porque você está desfilando a sua ignorância do código escrito na Internet. E o código escrito é a linguagem da Internet – por mais que você seja articulado e desenvolto em pessoa, nas redes sociais você é pouco mais que um cacófono em busca de atenção. Mas se esse for seu caso, é provável que não esteja entendendo uma linha do que estou escrevendo. Pode ser também que você não esteja entendendo coisa alguma pelo motivo que vou apontar no próximo e último tópico:

7. As redes sociais e o uso do álcool

Evite. Evite a todo custo. Como sabemos todos, o álcool é um poderoso fator de desinibição social. Um bêbado no computador é duplamente desinibido, pois ainda existe a barreira tecnológica que o isola de seus pares e lhe dá coragem pra fazer coisas como escrever uma mensagem tesuda pra aquela ex-namorada, mandar seu chefe se ferrar e outras adoráveis chances de autodestruição social. Tirando a verdade absoluta de que poucas coisas são mais deprimentes que um bêbado solitário em frente ao computador.

Concluindo

A vida em uma rede social é um delicado equilíbrio entre o quanto você quer que os outros saibam de você e o quanto você liga pra isso. Ela pode ou não ter consequências sobre a sua vida “real”. Conheço pessoas extremamente sociáveis, cheias de amigos e tal, que não tem Facebook. Conheço pessoas deprimidas e miseráveis interiormente que possuem mais de 1000 amigos no Facebook. Os casos são incontáveis, porém creio que no geral a experiência é mais ou menos a mesma – ambiente asséptico e impalpável onde projetamos o que achamos que é digno de se tornar público aos olhos dos outros. O desafio é descobrir o que queremos mostrar, como vamos mostrar e como lidamos com as consequências. O que pude descobrir é que a auto-importância e o “foda-se” podem conviver harmoniosamente, sem te transformar num refém de sua vida social internética.

Eu, como possuo um amor louco e irracional pela existência, acho fascinante ficar algumas horinhas no Facebook contemplando o universo mental de meus amigos, e enxergo um pouquinho de mim em cada um deles – o que me permite escrever um texto como esse sem o menor medo de ser aceito ou rejeitado. Já já estarei saindo de meu escritório para a vida, quando subirei em minha bicicleta e pedalarei gloriosamente rumo às aventuras que me esperam nessa terça-feira qualquer.


Texto escrito por Rafael (dedos), Artista Visual (e usuário de redes sociais) – http://dedos.info

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8 anos sem televisão: um relato

Em 2005 eu era um jovem de 18 anos partindo para a vida na grande cidade de São Paulo, onde fui com o propósito de estudar Artes… Sempre fui um cara de poucas posses materiais, então realmente não havia muito o que levar. Foi meio sem perceber mas quando vi, já estava rolando: eu não tinha mais uma televisão dentro de casa. Embora parentes e amigos tenham oferecido para mim aparelhos televisores que estavam sobrando ou encostados (“mas você não quer uma TV? POR QUE? O que vai fazer sozinho em casa?”), eu percebi uma situação interessante se desenhando, a vida sem a influência da programação diária das emissoras. Com o passar dos dias eu pude perceber os inegáveis benefícios desse estilo de vida. Vamos a eles.

BENEFÍCIOS A CURTO PRAZO:

– A DILATAÇÃO DO TEMPO. É realmente impressionante como o dia se alonga longe da televisão. Mesmo para mim, que assistia apenas alguns desenhos animados e noticiários, a sensação de dilatação do tempo foi impressionante. Supondo que eu assistisse a 2 horas de televisão diárias. Em uma semana surgiram novíssimas 14 horas livres. Faça a conta para os meses, para os anos e surpreenda-se com o tempo que gastamos em frente ao televisor. No começo era até meio esquisito mas comecei a prestar mais atenção em mim mesmo e nas coisas que gostava de fazer. O que nos leva à próxima percepção:

– MUDANÇA DO TEMPO INTERNO. As imagens em movimento tem uma característica curiosa. Por se sucederem rapidamente, uma após a outra, não temos tempo para refletir sobre a primeira e a segunda já nos toma a atenção. Após o abandono da TV percebi com o tempo que me tornei um cara mais “devagar”, mais sossegado e menos ansioso. Sem o barulho e os deslocamentos e mudanças rápidas da TV algo em mim parece ter se acalmado. Passei a ruminar meus pensamentos com mais calma. Analisar os fatos com mais tranquilidade, pois com cada vez menos interferências externas, maior cuidado passei a ter em minhas observações. O que cria uma brecha para o próximo tópico:

– MUDANÇA DE REFERÊNCIA / DEDICAÇÃO A SI MESMO. Com o meu novo tempo extra, comecei a passar mais tempo nas atividades para as quais eu estava voltado no momento – leituras, desenhos e caminhadas pela cidade de São Paulo. Desligado das notícias, das novelas, das propagandas, das desgraças televisivas, do lugar comum, percebi o quanto estava me aproximando de mim mesmo, longe do ruído da mídia de massa. Enquanto isso, desenhava muito e lia ótimos livros, além de minhas caminhadas por SP, o que aliás me fez lembrar de algo:

– REDUÇÃO DOS DESEJOS DE CONSUMO E INSATISFAÇÃO PESSOAL. Um dos segredos da televisão e da propaganda é fazer você se sentir um lixo. Sabia disso? Independentemente da mensagem, o objetivo é abrir lacunas em sua vida, criar defeitos, necessidades e falsos desejos. Para que você se sinta incompleto e use seu precioso dinheiro, que é unicamente o que interessa – o seu dinheiro. Porque afinal, você merece ter o melhor, certo? A operação da propaganda age em 3 sentimentos básicos:

  1. O título de “Consumidor” – “eu mereço gastar o meu dinheiro”.
  2. A superioridade individual – “eu mereço as melhores coisas que o dinheiro pode comprar”
  3. A aceitação da estupidez – “eu me exponho voluntariamente a esse lixo”

Pois longe da TV você nem vai saber que a maioria das coisas existem por aí, não vai ver gente “bonita” de TV desfilando objetos ou dotes físicos que você nunca vai ter. Você vai ver sim pessoas de verdade nas ruas, seus amigos, a si mesmo, e a vida longe das telas.

– REDUÇÃO IMEDIATA DO NÍVEL DE BURRICE. A Teoria da Comunicação é clara. Quanto maior a audiência de um produto midiático, menor o nível de informação que ele deve conter. E vice versa. Não é difícil fazer a conta: os programas de televisão tem nível de informação nulo ou muito próximo do zero. E com “informação” queremos dizer algo que tenha um impacto “real” em sua vida, algum tipo de modificação ou efeito prático no sentido de construir a si próprio como indivíduo pensante. Mas pra que tudo isso né?

BENEFÍCIOS A MÉDIO PRAZO:

– CORPO E MENTE MAIS SAUDÁVEIS. Eu tenho me assustado com a quantidade de pessoas pançudas por aí. Não são gordas – muitas são magras e ainda assim ostentam a famosa pança. A pança, para mim, é o resumo do estilo de vida televisivo. Sentado, curvado, passivo diante da TV, o espectador se alimenta de hamburgueres de microondas e chocolates enquanto seu cérebro e seu espírito são devassados pela miséria e estupidez expelida de seu aparelho. A letargia mental e física aprofundam suas raízes na poltrona. Poucas coisas no repertório do HOMEM DE BEM são mais deprimentes. E pra você que gosta de números? Segundo este confiável infográfico:

  • pessoas que se sentam por 3 horas diárias perante a TV tem 64% mais chances de morrer de ataque cardíaco;
  • dos que assistem TV por 3 horas diárias, os que se exercitam são tão gordos quanto os que não se exercitam;
  • cada hora adicional na frente da TV implica no aumento do risco de morte calculado acima em 11%.

É como se o corpo se rebelasse contra esse hábito deplorável.

– AUTOCONHECIMENTO. Não é papo espiritualista, esotérico ou autoajudante. Você realmente vai começar a conhecer melhor a si mesmo, com o passad do tempo: o que gosta, o que não gosta, os seus pensamentos e o seu jeito de lidar com as pessoas e com as coisas. O silêncio advindo da ausência de TV operará esta transformação em você, quer goste disso ou não. E não é um processo fácil. As vezes sentimos vontade de “esvaziar a cabeça” – a televisão é usada deliberadamente por muitas pessoas com esse propósito. Ou romances baratos, trilogias editoriais simplórias, televisão encadernada mascarada como literatura… Mas esse é o jeito dos fracos. É a s solução dos que preferem tirar o cérebro pra fora e colocá-lo para cozinhar dentro da geléia morna e gostosinha da mídia de massa. Encarar a consciência e o próprio Eu de frente é uma tarefa difícil, desconfortável, solitária. Pense bem se você deseja isso; talvez seja melhor vocẽ se ater aos programas dominicais.

– CONVERSAS E PESSOAS MAIS INTERESSANTES. Isso ocorrerá inevitavelmente, em sinergia com o item acima. Imagine que agora a novela, o jornal, propagandas, nada disso pode ser assunto de suas conversas, porque você simplesmente não sabe mais nada a respeito dessas inutilidades. Isso representa um aumento de espaço considerável em sua mente e o refinamento de suas ideias. Agora você é uma pessoa mais dedicada a si mesma, e tem mais conhecimento de si própria, e por isso mesmo é capaz de ter empatia com pessoas desse tipo, e se interessar verdadeiramente por elas. Não se surpreenda se de repente você estiver conhecendo pessoas que também não se interessam por TV e travando diálogos realmente interessantes com elas.

BENEFÍCIO A LONGO PRAZO

– AUMENTO SUBSTANCIAL DO INTERESSE PELA VIDA. Parabéns. Você passou esses anos todos longe da telinha. Longe da simulação e das mentiras. Longe do discurso que te trata como consumidor, como eleitor, como telespectador – como uma pessoa alienada de sua própria vida. Há tempos você não escuta de ninguém o que deve fazer, o que deve comprar – ok, talvez escute, mas que seja pelo menos de pessoas reais, de carne e osso, com quem você pode conversar – e a sua voz interna hoje é muito mais audível. Você vai fazer a feliz constatação de que, cada vez mais, um vivo e real interesse pelas pessoas, pelos lugares, pelas ideias elevadas, estará crescendo dentro de si. Quando conversar com alguém, você terá mais facilidade em ouvir a pessoa e dialogar em um nível sincero com ela. Entre outras inumeráveis surpresas, a vida sem TV desloca o foco dos personagens televisivos e da realidade que lhe foi sequestrada para sua própria vida, e a realidade diante de si (que não precisa ser necessariamente agradável, enfim).

– PERCEPÇÃO MAIS “REAL” DO MUNDO. Eu me lembro dos anos em que habitei São Paulo, no saudoso Ipiranga. Vez ou outra eu recebia a ligação de alguma pessoa conhecida, desesperada com as enchentes ou com situações violentas na cidade, perguntando se estava tudo bem. Ouvindo os pássaros que cantavam no quintal do meu refúgio aos fundos do bairro, eu dizia que sim, que estava tudo ótimo – São Paulo é uma cidade enorme, as coisas podem acontecer em um canto sem que o outro canto fique sabendo – A NÃO SER, é claro, que você esteja vendo o que acontece na TV, porque aí São Paulo realmente vai parecer um inferno muitas vezes pior do que realmente é (não deixa de ser um inferno, no entanto). A mídia tenta nos vender a mentira de que precisamos saber de tudo o que está acontecendo no mundo, e que ficar desinformado em relação aos acontecimentos globais implica em um tipo de perda ou disfunção social. David Henry Thoreau em seu brilhante A Vida sem Princípio diz que não dobraria a esquina de sua casa pra ver o mundo acabando. O que quero dizer com tudo isso é que você vai perceber um outro tipo de mundo, o mundo onde as coisas acontecem a seu redor, com pessoas e fatos reais, independente do que sejam. Seu foco estará totalmente voltado a esse mundo, o mundo em que efetivamente você vive e age, distante dos ecos desnecessários do aparelho televisor. Aproveitando o momento: também fica longe de propaganda política, o que é um elixir para o seu cérebro.

EFEITOS ESQUISITOS QUE ACONTECERAM COMIGO

– VIREI PRESA FÁCIL DE TELEVISÕES LIGADAS. Eu não esperava por isso, mas quando vou a um restaurante, casa de alguém, bar, qualquer lugar em que haja uma televisão ligada, eu devo me sentar de costas a ela ou ficar o mais longe possível. Tanto tempo longe das telas faz com que minha curiosidade seja atiçada gravemente diante de uma televisão, pois me atinge um desejo de querer saber o que as pessoas estão vendo, conversando nas ruas, pensando. Quando vejo uma TV ligada meus olhos grudam nela como imãs, atualmente…

– PERDI O ASSUNTO COM MUITA GENTE. Eu nunca sei qual novela está passando, o que está acontecendo no mundo, novidades do mundo da mídia, nada. Felizmente não fico na mão com meus amigos e amigas mais próximos, mas por aí eu percebo o quanto a TV é dominante em nossa sociedade.

– PERDI O HÁBITO DE “ASSISTIR”. Algumas pessoas ficam especialmente putas comigo por causa disso. Eu não tenho paciência pra assistir mais nada. Filmes, vejo raramente, e se é ruim não tenho paciência pra ir adiante. Clipes de música que a galera manda no Facebook, é foda, muito de vez em quando. Assistir imagens em movimento se tornou uma atividade que gera extrema preguiça em minha pessoa. Fora este diálogo clássico: “Já assistiu tal filme?” “Nunca vi…” “Puta que pariu cara!”

– PERDI O RESPEITO POR JORNALISTAS E PUBLICITÁRIOS. Nada pessoal, mas percebi o quanto sou mais feliz longe desse tipo de profissionais. Aliás, dizem por aí que a propaganda e o marketing brasileiros são “top de linha”. A julgar pela vergonha alheia extrema que sinto quanto passo alguns minutos na frente da TV, eu espero nunca ver uma propaganda de outro país considerado ruim no ofício.

– FICO EXTREMAMENTE IRRITADO COM ALGUMAS COISAS ENVOLVENDO VÍDEOS. Como por exemplo, quando existe uma animada roda de conversa entre amigos e um deles resolve ligar a TV. Ou quando vou visitar uma pessoa amiga e ela me convida pra ir ver vídeos no YouTube. Pessoa querida, eu vim te visitar, depois você me manda essa porra por email. Outra coisinha que aconteceu, agora eu acho a Videoarte um saco.

CONSTATAÇÕES

– 100% DO QUE EXISTE NA TV É UMA BOSTA. Não há exceção nem escapatória a essa verdade absoluta do universo.

– QUALQUER COISA QUE VOCÊ FIZER É MELHOR DO QUE ASSISTIR TELEVISÃO. Independente de quão glorioso ou lamentável seja o ato que você for realizar, ele envolve ação, escolhas, pessoas, lugares… É a sua vida em movimento, e não a de um fantoche que nada tem a ver com você.

É POSSÍVEL MANTER-SE INFORMADO LONGE DA TV. Melhor ainda: mantendo-se informado apenas das coisas que lhe interessam. E o melhor de tudo: você terá que pedir por elas, ir atrás, selecionar, escolher…

– É POSSÍVEL SE APROXIMAR DAS PESSOAS ASSISTINDO TV. Tive um problema sério em minha trajetória profissional, quando passei a dar aulas para adolescentes. Eu simplesmente não entendia muitas de suas gírias e contextos de conversas… Era aquela época em que todo mundo ficava falando “Ronaldo”. Assisti TV por uns 3 dias na casa de uma amiga e meu approach com a rapaziada melhorou bastante. As vezes quando vou visitar minha avó eu sento com ela e assisto a novela, ela gosta de me contar sobre os personagens, é um jeito de passarmos um tempo juntos. Eu aproveito pra fazer uma visão crítica da coisa. Usar sem ser usado. E ainda passar um momento agradável junto a quem se gosta. Não é necessário ser muito chato.

CONCLUSÃO

Não acho que esse estilo de vida sirva pra todo mundo. Este é um relato pessoal de como minha vida foi transformada pela ausência de TV. Eu não consigo mais nem conceber essa ideia em minha vida, diante de tantas possibilidades e coisas que quero fazer. Pode ser uma saída útil para pessoas com diversos desejos, mas estão perdidos em relação a eles, a como começar… A eliminação da TV traz imediatamente dois fatores: tempo livre e silêncio mental – o que pode ser enlouquecedor para alguns. Espero que seja de alguma forma animador e se quiser ajuda pra destruir o seu aparelho televisor, favor convidar!


Texto escrito por Rafael (dedos), Artista Visual (e não-espectador) – http://dedos.info

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Dieta da verdade

Tinha dois problemas: estava acima do peso e era um mentiroso compulsivo. O primeiro deles era genético, herdado das famílias do pai e da mãe. O segundo foi adquirido; tornou-se crônico.

Sabia que algo precisava mudar. Como não tinha disciplina para tentar resolver um problema de cada vez, adotou uma tática drástica para perder os quilos e as mentiras que sobravam: para cada mentira contada, uma refeição a menos.

No início foi difícil. Chegou a passar dias seguidos sem comer – o que era uma tortura para uma boca acostumada a mastigar frituras e cuspir calúnias o tempo todo e sem peso na consciência.

Um deslize aqui, outro ali, foi seguindo com a dieta em sua rotina. Parecia estar dando resultado. Semanas depois, não acordou para ir ao trabalho. Havia morrido dormindo.

No laudo médico, o motivo da morte: desnutrição.
No laudo moral: não sobreviveu à verdade.

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